A Dirty Game

Por pouco, a seleção da Holanda não participou da Copa do Mundo de 1978, disputada na Argentina. Uma enorme campanha para que os holandeses não participassem daquele Mundial se iniciou no país, quando as notícias de tudo o que ocorria em solo argentino chegavam à opinião pública holandesa.

O documentário holandês “A Dirty Game”, em seus quase 50 minutos de duração, conta um pouco esta história.

Assim como no Brasil, a Argentina vivia uma ditadura militar, uma das mais (ou a mais) violentas da América do Sul. De acordo com os números oficiais, mais de 30 mil pessoas desapareceram durante os anos de linha dura do general Jorge Videla.

Muitas opiniões e pontos de vista são colocadas à mesa durante o filme.

Neeskens, uma das estrelas da “Laranja Mecânica” de 74, diz que futebol e política não devem ser misturados na mesma panela, “senão não vamos ter mais partidas em nenhuma parte do planeta”.

O guia da seleção da Holanda, o argentino Cláudio Von Förster, deixa claro que por causa da ignorância política dos jogadores holandeses, eles se deixaram fotografar com as pessoas erradas, causando uma enorme revolta em solo holandês.

Mas é de Nora de Cortiñas, cujo filho foi raptado no verão de 1977 e uma das fundadoras do grupo “Madres del Mayo”, grupo de mulheres que clamam justiça pelos seus filhos e filhas desaparecidos durante os anos terríveis da ditadura, o depoimento mais emocionante.

No dia da final, entre Argentina e – ironicamente – Holanda, Nora chorou durante todo o dia. Não conseguia, de forma alguma, compactuar com aquilo. Não entrava na sua cabeça como as pessoas conseguiam celebrar aquele Mundial, enquanto que milhares de pessoas estavam desaparecidas, inclusive seu filho Gustavo, a quem ela ainda acreditava que estivesse vivo…

Os argentinos se sagraram campeões do mundo, vencendo os holandeses por 3 a 1.

E claro que este título foi utilizado como uma forma de propaganda do país e de seu sistema político.

Não é de se admirar que, no dia seguinte à conquista, milhares de pessoas estavam nas ruas de Buenos Aires gritando: “Viva Argentina! Viva Videla!”.

A Dirty Game (2002)
por Jaap Verdenius & Kay Mastenbroek.