A noite do dia 30 de abril de 1994 era uma como outras muitas na vida de um jovem de 20 anos quando não se tem uma balada (a gente nem usava o termo nessa época!) para ir: chamar uns amigos para jogar videogame a noite toda. Como todos adorávamos (e continuamos adorando) Fórmula 1, começamos a jogar o lendário Grand Prix da Microprose e a falar sobre os acontecimentos do final de semana no GP de San Marino – o grave acidente do Rubinho Barrichelo e a morte do piloto austríaco Roland Ratzenberger. Jogamos a noite toda e fomos dormir, pois no dia seguinte Palmeiras e São Paulo fariam um jogo que poderia ser decisivo para o Paulistão de 1994, que naquela edição seria decidido nos pontos corridos. Ficaram para dormir o meu primo Alemão, palmeirense como eu, e o Turino, um grande amigo são-paulino. Combinamos que todos veriam o jogo na arquibancada com a torcida do Palmeiras, e no próximo clássico faríamos o inverso. Infelizmente a jogatina nos fez perder a corrida, algo raro, e acordei por volta do meio dia com o telefone tocando e o meu irmão gritando para eu ligar o rádio na Jovem Pan, que o Senna tinha morrido. Ainda com sono, liguei o rádio para ouvir o Claudio Carsughi anunciando a morte do piloto.

Almoçamos e fomos ao Morumbi para ver o jogo, e já na descida para o estádio vimos várias pessoas com a camiseta da Williams em homenagem a Senna. O jogo começou, naquela época feliz que podíamos ver em campo dois timaços e estádio cheio, e com poucos minutos o árbitro parou o jogo para um minuto de silêncio em homenagem ao Senna.  Não me lembro de ter visto o árbitro fazer o minuto der silêncio DURANTE o jogo, e para minha surpresa ainda maior, as duas torcidas – que na época viviam ainda mais intensamente a rivalidade – gritaram em uníssono “Olê olê olê olá… Senna! Senna!’. Foi um dos momentos mais emocionantes que eu passei num estádio de futebol. O jogo não decepcionou também, com o São Paulo vencendo por 2-1 no segundo tempo, quando o Luxemburgo tirou o lateral-direito Claudio e colocou o Maurílio no ataque, uma substituição que ele sempre fazia quando o Palmeiras estava perdendo. Ele deslocava o Mazinho para a lateral, posição de origem dele (posição da qual ele deu o cruzamento pro gol do Romário na Copa América de 89, acabando com 40 anos de fila do Brasil) e o Palmeiras ficava com três atacantes. Irritados com a aparente falta de ideias do treinador, a Mancha logo gritou “Burro! Burro!”. Aí aconteceu outra surpresa do dia: o Maurílio entrou e correu para a área do São Paulo, e no escanteio cobrado a bola sobrou para ele, no primeiro toque, empatar o jogo. O Luxemburgo virou para a torcida e começou a xingar, mostrar a camisa, e a torcida se rendeu, gritando sem graça: “Inteligente… Inteligente…”. O Maurílio ainda sofreria uma falta pouco depois, que seria convertida pelo Evair, e o Palmeiras venceu por 3-2. Foi o maior jogo que eu vi num estádio!