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Eu vibrei demais com os gols de Ronaldo na Copa de 1998. Fiquei realmente sensibilizado com a convulsão que praticamente decretou a derrota do Brasil na final contra a França. Também torci demais por sua recuperação semanas antes da Copa de 2002. E comemorei como só um jovem de 20 anos é capaz de comemorar os dois gols derradeiros na final contra a Alemanha. Embriagado e feliz por gritar por um ídolo que jamais desistiu.

Mas a gente sempre tem a mania de enxergar irrestritas virtudes nos heróis esportivos. Como se eles não fossem feitos de carne, osso e interesses. Ronaldo, ao aposentar as chuteiras, deu todos os sinais de como é fácil desconstruir esse mito. Ronaldo é eleitor de Aécio Neves. Deixou isso claro após postar uma foto nas redes sociais e de confirmar o voto ao jornal Valor Econômico. Nada a contestar, mesmo sendo membro do Comitê Organizador da Copa. O problema é adotar justamente agora um discurso completamente oposto do que vinha fazendo nos últimos meses.

Ronaldo se diz envergonhado com os atrasos do Brasil nos preparativos para a Copa do Mundo. Mas, no final de 2013, sua declaração indicava uma total compreensão sobre os prazos. “Gringo, no geral, não conhece o nosso jeitinho brasileiro de ser, de fazer as coisas. Acho que é muito característico isso, no brasileiro, de fazer as coisas no último momento e começar uma correria”. Relativizou o problema, para atacá-lo depois.

Ronaldo passou os últimos 4 anos tapando o gol com a peneira. A Copa não se faz com os hospitais, frisou o ex-jogador, em dezembro de 2011. Culpou a imprensa por tirar a frase do contexto. E agora se diz constrangido pelas críticas da Fifa e lamenta pela falta de legado que as obras de infraestrutura poderiam trazer à sociedade como um todo.

O recado não poderia ser mais claro. Ronaldo quer se eximir de qualquer responsabilidade, ao mesmo tempo em que critica o governo federal, fingindo que não estavam de mãos dadas até horas atrás. O “Fenômeno”, levado ao Comitê pelas mãos de Ricardo Teixeira, mesmo após ter dito que por uma questão de caráter não gostaria de se relacionar com o ex-presidente da CBF.

Ronaldo não deve estar preocupado. Afinal, as cifras conquistadas com todas as ações publicitárias cresceram num ritmo muito mais rápido que a construção de qualquer estádio. E agora, o próprio jogador já cogita participação direta na campanha do candidato tucano.

Teremos Copa, mas perdemos algumas oportunidades que não podem ser ignoradas. Para o mundo, reforçamos a impressão de desorganização e falta de transparência. O Brasil olha agora para Ronaldo num misto de indignação e incredulidade. Temos diante de nós um ídolo dos gramados contaminado por seus próprios interesses. Aos meus filhos, mostrarei seus gols, mas sem nunca deixar de mostrar a eles a verdadeira face do cidadão. A vergonha não é sua, Ronaldo. Pode acreditar: é toda nossa.

Postado por Fabio Chiorino

Fonte: Esporte Fino